“Se a espécie humana sobreviver, imagino que os homens do futuro considerarão nossa esclarecida época como um verdadeiro século de obscurantismo. E serão sem dúvida capazes de apreciar a ironia desta situação com mais humor do que nós. Rirão de nós. Saberão que aquilo a que dávamos o nome de esquizofrenia era uma das formas sobre as quais – e muitas vezes por intermédio de pessoas absolutamente comuns – a luz começou a aparecer através das fendas de nosso espírito fechados... A loucura não é necessariamente um desabamento (breakdown); pode ser também uma abertura de saídas (breakthrough)... O indivíduo que faz a experiência transcendental da perda do ego pode ou não perder de diversas maneiras o equilíbrio. Pode, então, ser considerado louco. Mas ser louco não é necessariamente ser doente, mesmo se em nosso mundo os dois termos se tornaram complementares... Partindo do ponto de vista de nossa pseudossaúde mental, tudo é equívoco. Esta saúde não é uma verdadeira saúde. A [157] loucura dos outros não é uma verdadeira loucura. A loucura de nossos pacientes é um produto da destruição que nós lhe impomos e que eles se impõem a si próprios. E não se pense que podemos encontrar a verdadeira loucura, nem que somos verdadeiramente sãos de espírito. A loucura que encontramos em nossos doentes é um grosseiro disfarce, uma aparência enganadora, uma caricatura grotesca do que poderia ser a cura natural desta estranha integração. A verdadeira saúde mental implica de uma maneira ou de outra a dissolução do ego normal...”.
Ronald David Laing, La politique de l’expérience, pp. 89, 93, 96, 100. Nota da página 177-178 de O Anti-Édipo (Gilles Deleuze, Félix Guattari)
Nenhum comentário:
Postar um comentário