"O mundo do juízo se instala num sonho. É o sonho que faz girar os lotes, roda de Ezequiel, e faz desfilar as formas. No sonho os juízos se arremessa como no vazio, sem enfrentar a resistencia de um meio que os submeteria às exigencias do conhecimento e da experiência; eis por que a questão do juízo é primeiamente a de saber se estamos sonhando. Por isso Apolo é ao mesmo tempo o deus do juízo e o deus do sonho: é Apolo quem julga, impõe limites e nos encerra na forma orgânica; é o sonho que encerra a vida nessas formas em nome das quais a julgamos. O sonho ergue os muros, nutre-se da morte e suscinta as sombras, sombras de todas as coisas e do mundo [espuma apolínea do elemento dionisíaco?], sombras de nós mesmos. Mas, tão logo abandonamos as margens do juízo, também é o sonho que repudiamos em favorde uma "embriaguez" , como de uma maré mais cheia. É nos estados de embriaguez, bebidas, drogas, êxtases que buscará o antídoto ao mesmo tempo do sonho e do juízo. Cada vez que nos desviamos do juízo em direção à justiça, entramos no sono sem sonho. Os quatro autores [Nietzsche, Artaud, Kafka, Lawrence] denunciam no sonho um estado ainda demasiado imóvel e dirigido demais, governado demais. Os grupos que tanto se interessam pelo sonho, psicanálise ou surrealismo, prontificam-se também na realidade a formar tribunais que julgam e punem: repugnante mania, freqüente entre os sonhadores. Em suas reservas ao surrealismo, Artaud ressaktava que o pensamento não se choca contra um núcleo do pensamento que lhes escapa. Os ritos do peyotl, segundo Artaud, os cantos da floresta mexicana, segundo Lawrence, não são sonho, porém estados de embriaguez ou sono. Esse sono sem sonhos não é daqueles em que dormimos, mas ele percorre a noite e habita com claridade assutadora que não é o dia, mas o Relâmpago: "No sonho da noite vejo cães cinzas, que se arrastam para vir devorar o sonho". Esse sono sem sonho, que não se dorme, é Insônia, pois só a insônia é adequada à noite e pode preenchê-la e povoá-la."
G. Deleuze - Crítica & Clínica - Edt. 34
Nenhum comentário:
Postar um comentário